Passam-se semanas ou meses e de novo sei que preciso ir vê-la. Ela é parte de mim, é o cheiro de bicho que mais gosto entre os cheiros,
é toda a minha audácia e o meu gozo extenso, ela é os meus olhos, a minha pureza, há
anos, anos... Tenho imensa fome dela desde que lhe ouvi da primeira vez, a sua voz
doce e franca, o seu nome em língua estranha: Pauline... Com ela, e por isso de
tanta necessidade, é como se adivinhasse a imensidão da vida, toda a sua brutalidade, com ela é como se
espiasse lá na víscera das coisas...
17 de maio de 2013
Lembrança de Compostela
Ruas estreitas
Que são como veias
Onde se trombam
padres, turistas,
Peregrinos, e toda
sorte
De filhos da puta
Como eu.
Madame Groselha
Ela
sempre partia
Com
todo o seu mundo.
“Aonde
nós vamos,
Madame
Groselha?”
“Não
sei ao certo”,
Retrucava
ela,
“Mas
seguiremos
O
primeiro tumulto
A surgir
no escuro”.
6 de março de 2013
4 de março de 2013
Hoje eu vou conseguir um teto
Uma viagem a pé, subindo
até um povoado que se assentou há séculos nos picos de umas serras, eu não falo
a língua deles, mal sei o que cultivam, o que bebem, como dançam, como são suas
festas, e eles por sua vez não me esperam, desconhecem por completo o meu
cheiro de homem novo e a cor de minha pele, num ar rarefeito vou subindo
enquanto mastigo algumas folhas de coca, a procissão é longa e por horas silenciosa... O mochilão pesa, a máquina
fotográfica vai a tiracolo, de vez em quando me sento, penso nos dias, se eu
voltar pro escritório é bem capaz que eu pire, puxo dum bolso uma gaita que
você me deu e toco com alegria para ninguém, toco para este solo de pedras, para
este céu que oprime, para as penas que carrego, eu gosto da vida em fluxos,
caminhando, caminhante, hoje eu sei que vou conseguir um teto mas amanhã a
estrada novamente começa.
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prosa poética
22 de fevereiro de 2013
21 de fevereiro de 2013
Naturalista
É tão absurdo sentir
Que se tem um corpo...
Os ossos estalam, os braços pesam
Balançam, a batata da perna se joga
O espírito e os órgãos
Se estiolam - as costas firmes
Desmoronam...
Que se tem um corpo...
Os ossos estalam, os braços pesam
Balançam, a batata da perna se joga
O espírito e os órgãos
Se estiolam - as costas firmes
Desmoronam...
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poesia
19 de fevereiro de 2013
18 de fevereiro de 2013
Sangre de toro corre por mis venas
Y ahora llego
RETUMBANTE
distendiendo en abandono
mis montañas de Toro...
RETUMBANTE
distendiendo en abandono
mis montañas de Toro...
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poesia
15 de fevereiro de 2013
Vacía está mi vida
Europa, inverno. Dias
gélidos
Feito carícia de pedras.
Não adianta expor
O corpo inteiro. Aqui
Nada penetra. "Los cuervos
Pasan lindos y nuestros ojos
Tan vacíos!" O sol não estraçalha, vida
Sem motivo, palha. Os homens têm modos
De blocos de granito.
Feito carícia de pedras.
Não adianta expor
O corpo inteiro. Aqui
Nada penetra. "Los cuervos
Pasan lindos y nuestros ojos
Tan vacíos!" O sol não estraçalha, vida
Sem motivo, palha. Os homens têm modos
De blocos de granito.
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poesia
14 de fevereiro de 2013
Sensibilidade romântica
Ele se derramava naquele teu antigo e-mail com correios que preenchiam senão todos, pelo menos mais da metade dos dias
da semana... Compunha com o fervor do instante, através de um palavreado frenético: escrevia e
mandava escrevia e mandava escrevia escrevia escrevia - o som estourado do fone perfurava seus ouvidos... Reclamava
comumente, entre um parágrafo e outro: “faltam 15 minutos”; “principessa, 5 minutinhos para dar meu horário”; “o professor já deve ter ido pra sala”. Se reparasse bem - pois agora repara - notaria você que suas mais belas viagens estão feito arranjo de flores jogados
na tua caixa de entrada.
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prosa poética
13 de fevereiro de 2013
9 de fevereiro de 2013
Se perdendo, se encontrando
E onde é que consigo me arranjar?... Que hei de fazer para não capitular na miséria?... Eu aceito tudo - absolutamente. Eu topo de tudo em troca do aluguel pago e de alguns pratos de comida... - Guia turístico de igrejas
medíocres, chefe da limpeza de algum órgão público, traficante de quadros, passador de haxixe: é preciso agarrar alguns putos com
todos os dedos do mundo... E aceitar mesmo ser piloto de dirigíveis, ou transportador de carreto, ou ser um educador do ensino público... Veja, absolutamente
tudo - eu me jogo sem trégua: vendedor de churrasco grego de algum centro da América, voluntário em experiências com ácido, algum trabalho que nem sequer exista... Simplesmente estou aqui, e bronco, e disposto, e sem juízo... Para mim pouco importa, o que vier tá salvando, - e que venha!... Um buraco em minha vida necessita algum ofício.
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prosa poética
6 de fevereiro de 2013
31 de janeiro de 2013
E sobretudo em águas marítimas
Gosto de nadar, mas não como se faz dentro de
um desses retângulos azuis, por exemplo, ir de um lado ao outro, de leve, progressivo, seguindo à risca as linhas do conforto... - Eu gosto é de nadar no oceano, nos lagos de alga manchados por reflexos e âmbar... Receber uns tapas de espuma na cara, imergir por um tempo e voltar à tona depois com um punhado de areia
na mão... Nadar em todas as direções, profundidades, latitudes... Sentir cagaço, ou êxtase - o coração batendo na garganta... - Esse tipo de mergulho sim expande as possibilidades de minha vida... - E é aí, e sobretudo em águas marítimas, que eu mais gosto de me meter.
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poema em prosa
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