Não há esquemas que captem o sentido da vida. Impossível generalizar, abranger, dizer "essa pedra é isso e isso e isso; um sapo é aquilo"; os sistemas de ideias, todos, são imperfeitos. Há de se ler as palavras de um dicionário e não encontrar uma apropriada, que desfaça o mistério. Nem mesmo livros extensos, manuais de Filosofia, ou autores de peso conseguem esclarecer. É o nada, o vazio; é algo gratuito. Sentir apenas, sentir é o que nos é dado.
O Atlântico é gratuito, as linhas de minha mão são gratuitas, as papoulas do jardim da esquina, que enfeitam o bairro com muita competência, sua beleza é ou não é gratuita? Serviria pra alguma coisa, sua beleza, além de ser bela? Tem um fim verdadeiro, puro? É útil, ou é inútil, afinal? Essas questões não importam, em absoluto. É preciso aceitar o espetáculo, o movimento que não se detém, atolar os dois pés na eternidade. Calar-se é preciso, calar-se.
O Atlântico é gratuito, as linhas de minha mão são gratuitas, as papoulas do jardim da esquina, que enfeitam o bairro com muita competência, sua beleza é ou não é gratuita? Serviria pra alguma coisa, sua beleza, além de ser bela? Tem um fim verdadeiro, puro? É útil, ou é inútil, afinal? Essas questões não importam, em absoluto. É preciso aceitar o espetáculo, o movimento que não se detém, atolar os dois pés na eternidade. Calar-se é preciso, calar-se.
Nosso discurso não alcança o essencial, apenas imagina, deduz. Através de embustes, ele fabrica a realidade. Nossas teorias têm somente a potência da ficção. Fruto da necessidade de dar ordem ao mundo, fantasia de adultos, homens sérios. A realidade corre além dos cercos da Filosofia, e afinal de contas não há conceitos que com o tempo não se revelem um engano. A consciência é falha em chegar ao soterrado, não tem vitalidade para explorar profundamente. Resulta que se aplica em superficialidades, sobre efeitos, consequências. É quase cega. Só nos é dado sentir, ter intuições; no limite, não há nada para ser explicado; a vida não tem razão.
Isso é sufocante, sim; é trágico. A loucura e o desespero residem aí. Mas também reside aí a força que me infla, me faz marchar, que faz com que me órgãos e minhas vértebras pulsem de sangue sem eu sequer dar conta disso, a força que povoa minha boca de gritos, que faz com que sorria à visão de uma aranha atrás do armário, que faz com ela construa sua teia tão perfeitamente. Somos testemunhas, mesclados uns aos outros, os bichos, as montanhas, as nuvens, cada um com sua verdade. Apenas habitamos; formamos um corpo.
Isso é sufocante, sim; é trágico. A loucura e o desespero residem aí. Mas também reside aí a força que me infla, me faz marchar, que faz com que me órgãos e minhas vértebras pulsem de sangue sem eu sequer dar conta disso, a força que povoa minha boca de gritos, que faz com que sorria à visão de uma aranha atrás do armário, que faz com ela construa sua teia tão perfeitamente. Somos testemunhas, mesclados uns aos outros, os bichos, as montanhas, as nuvens, cada um com sua verdade. Apenas habitamos; formamos um corpo.
Tudo abunda, tudo se choca, tudo galopa com o tempo infinito; não há paz possível; tudo se move e se move e se move e se move e se move e se move e se move. Não fazer da fuga uma aspiração, mas tratar de virar-se para mi mesmo, ser humilde, e vigilante; é o que resta. Jamais se abandonar, anseio inútil, aliás. Mas afinar o espírito, afinar os sentidos, uma riqueza de sensibilidades é vital para ter gosto, generosidade, valor. Enxergar, para além de ver. Estar perplexo todo o tempo, para cada novo detalhe. Saber se embriagar.
Um amor de sangue, que deslize comigo, no meio da existência, que não me anestesie.
Esta mulher de perfil grego, de sorriso doce, um sorriso torto, com tiques de atriz. Me comunico com sua violência, ela invade os meus muros. Mas eu estou aberto, afinal. É ela. Deixo que ela me perturbe. Eu a escolhi, entre tantas outras, com pureza, com calma; fiz dela o meu esquema. Os seus pés enroscados aos meus; as pernas envolvendo o meu tórax largo; os joelhos sobre as minhas coxas, nuns instantes de descanso, dentro de um ônibus.
Que importa se isso é banal para outros olhos, ou se o mundo me dá milhões de outras oportunidades? O importante na vida, assim como na arte, é o caminho de sua ilusão. Se queremos ser felizes, não temos que buscar pela lucidez. Lúcido todo o tempo, e o homem não marcha.
Eu a vejo sentada na borda da janela enquanto discursa com a boca rubra de álcool; aqui desviando da cadeira em passos lentos de felina; ali provando todas as minhas roupas de homem, de menino, demasiado largas pros seus membros macios. É ela, eu a escolhi. Sinto o seu cheiro acre, profundo; o cheiro de seus cabelos negros, o shampoo do meu banheiro; o suor de sua nuca, ali onde os cabelos nascem; o seu suor, tão semelhante aos das fêmeas de minha espécie, mas que para mim, por ser dela, se tornou especial.
Um amor de sangue, que deslize comigo, no meio da existência, que não me anestesie.
Esta mulher de perfil grego, de sorriso doce, um sorriso torto, com tiques de atriz. Me comunico com sua violência, ela invade os meus muros. Mas eu estou aberto, afinal. É ela. Deixo que ela me perturbe. Eu a escolhi, entre tantas outras, com pureza, com calma; fiz dela o meu esquema. Os seus pés enroscados aos meus; as pernas envolvendo o meu tórax largo; os joelhos sobre as minhas coxas, nuns instantes de descanso, dentro de um ônibus.
Que importa se isso é banal para outros olhos, ou se o mundo me dá milhões de outras oportunidades? O importante na vida, assim como na arte, é o caminho de sua ilusão. Se queremos ser felizes, não temos que buscar pela lucidez. Lúcido todo o tempo, e o homem não marcha.
Eu a vejo sentada na borda da janela enquanto discursa com a boca rubra de álcool; aqui desviando da cadeira em passos lentos de felina; ali provando todas as minhas roupas de homem, de menino, demasiado largas pros seus membros macios. É ela, eu a escolhi. Sinto o seu cheiro acre, profundo; o cheiro de seus cabelos negros, o shampoo do meu banheiro; o suor de sua nuca, ali onde os cabelos nascem; o seu suor, tão semelhante aos das fêmeas de minha espécie, mas que para mim, por ser dela, se tornou especial.
4 comentários:
Disse tanto, num belo texto. Traçou de um jeito bonito esse nosso mistério que é o viver, essa inquietação que nos toma de certo modo a todo momento quando procuramos razão no que deve ser irracional. Belo texto, verdadeiro, belas imagens. Reta dizer,parabéns.
Muito bonito! Foge da dicotomia, do homem separado do objeto, da visão cientificista que, com sua visão atomicista, reduz o mundo em teorias. Esse texto tem um quê de Fenomenologia e existencialismo; carrega a primazia da subjetividade que se constrói não por instrumentos de análise ou conceitos predeterminados, mas intuitivamente.
tudo uns grego.
barbarizo
sensual... que qualidade belíssima é essa sua da sensualidade tão pura, tão delicada. que transborda em seus textos... e os gregos. ha! esses te inspiraram bem... ou algo há no seu dna da psicologia deles. leria os gregos do teu lado por algumas noites frescas de março a maio, numa rede boa ou qualquer canto de varanda em que as constelações nos inspirem a lembrança deles. beijos!
Postar um comentário