26 de outubro de 2011

Esquisito

Clarões de mar nas minhas pestanas... Clarões me assaltam, me embalam; e me ocorrem cada vez mais fortes, cada vez mais claros... É como um feitiço... Estamos no meio da aula, o professor fala baixinho... A brisa também me embala e me desconcentra...

Grunhidos de gaivotas nas minhas orelhas... Gritos parecidos a lamúrios humanos! Augúrio confuso, indecifrável de gaivotas... Menos do que isso e alguns ficam loucos...

Balouçar de velas, choque de canoas... Roncar de proas e popas ao longo do porto...

Uma caravela! Vejam só; são águas-vivas! Uma infinidade delas, em verdade... Se exibem, passam lentas... Sabem que fascinam a nossa vista.

Os tubarões dormem lá embaixo, entre as algas... Estão tranquilizados, agora. Ontem mesmo eu os via, se agitavam, mais um ataque covarde... Mandíbulas de faca... Vermelhidões de passagem...

A rede sobe inchada das mãos do pescador... Garantiu-se a comida pra uma semana. Sua mulher me convida pra janta, um prato bem temperado... Sem dúvida alguma que eu vou; tenho meu lugar arranjado.

Focas que emergem penteando as ondas... Golfinhos passeando à pequena distância... Algumas nuvens que estacionam entre o sol e a minha cara...

O professor acima de mim, exigindo explanações sobre a aula ministrada.

O que vou lhe dizer agora? Eu estava em outros picos; na cabeça só movimentos marinhos... Eu tenho que lhe dizer qualquer coisa e de repente - o senhor também... professor... falava tão baixinho!

Não não - que merda eu disse? -, é que o senhor sabe, domingo eu fui pra praia, eu corri de barco eu comi mariscos me enterraram na areia... Mas ele diz - isso não é desculpa. Você não tá aqui de brincadeira! E principia o discurso batido...

Porque seus estudos, mocinho...

Os seus deveres...

Sua carreira. Sua família...

Me abarrota de palavras sem sentido... Aos poucos, habilidoso, fecho os ouvidos. Vejo sua boca se abrindo e fechando; taí o seu rosto se deformando, um olho menos brando. Ele até que me sacou rápido hoje! Me puxa de um tranco e vamos pra diretoria...

Assim é que é, quase todo dia... De novo com esse papo de mar, mocinho! Pois sim, diretora... Me toma, sei lá, - você precisa prestar atenção nas aulas! Pois eu não consigo! Vão me assaltando uns clarões, vão me invadindo... - e o que fazemos a seu respeito, então?

Eu sei lá, diretora...

Talvez me deixassem ser esquisito.

1 comentários:

Júlia Marinho disse...

hahahaha! amei! lindo, bem humorado e sensível. até parece com vc!